quarta-feira, 28 de abril de 2010

Amor de cinema


Filme: Cupido é Moleque Teimoso (The Awful Truth, 1937)
Nota: 9,25
Para ler escutando: Love Song – Sara Bareilles

Sou uma entusiasta das comédias românticas. Já vi tantas, mas tantas, que não vale mais a pena nem passar pela seção na locadora. Sei várias praticamente de cor (“Mensagem para você” e “Diário de Bridget Jones”, por exemplo) . E eu fico triste de ver o gênero morrendo na frente dos nossos narizes. Afinal, a produção de boas comédias românticas está diminuindo exponencialmente, com a dinâmica de um casal sendo substituída por super-elencos que fazem um cartaz ficar pequeno pra tantos nomes.

A influência do gênero no mundo é tão grande que a Universidade de Heriot-Watt em Edimburgo desenvolveu uma pesquisa indicando que fãs de rom-coms (gíria norte-americana pro gênero) tendem a ter problemas com seus relacionamentos amorosos. Por quê? Esses filmes acabam exatamente no momento que a vida realmente começa, e a idealização do “Felizes Para Sempre” fixa suas raízes na cabeça dos ingênuos espectadores. Porém, essa influência raramente atinge os corações de pedra dos críticos e dos prêmios, e as rom-coms são sempre criticadas e esquecidas.

As comédias românticas dependem completamente da seguinte sequência de fatores: do charme e romantismo de seus roteiros e diálogos, do bom uso de comédia física e de um casal de protagonistas carismáticos. Mas a existência dessa pequena fórmula para o sucesso não significa que o enredo do mesmo também deva seguir uma fórmula mágica. Ultimamente, grande maioria dos filmes do gênero segue a mesma ordem de fatos:

1º- Eles se conhecem. Algo diz que o romance é impossível. Pode ser um impedimento social ou familiar, como em todos os spin-offs de Romeu e Julieta, ou pode ser a incompatibilidade de personalidades (ele é mulherengo, ela é esnobe, e por aí vai).
2º-Eles se apaixonam. Mas eles não querem admitir isso. Nesse momento, relacionamentos coadjuvantes podem acontecer.
3º- Um deles vai se casar/mudar/_____. O outro percebe então que o amava. Logo, esse outro vai correr, triunfantemente, ao som de uma música igualmente épica, para impedir que isso aconteça.
4º- E então eles viveram felizes para sempre. A não ser que tenha sequência.

Não estou dizendo que todos os filmes que seguem essa fórmula são ruins. Na verdade, vários são geniais. Porém, para pegar essa fórmula e transformar em um bom filme, você tem que ser um roteirista de talento mesmo.

Já que essa fórmula existe (e está aí para qualquer um que quiser juntar uma câmera, a Renée Zellweger e o Hugh Grant, e fazer um filme) eu fico completamente maravilhada quando algum filme consegue sair dessas linhas, mesmo que parcialmente. E fiquei mais maravilhada ainda quando vi um filme de 1937 que fez isso com maestria. Tanta maestria que seu diretor, Leo McCarey, conquistou o Oscar no mesmo ano. Sim, uma comédia romântica ganhando Oscar de direção, isso parece a coisa mais inesperada do mundo nos dias de hoje. Dias em que Sandra Bullock quase não levou o prêmio por sua atuação maravilhosa em “Um sonho possível” apenas por ter conquistado sua fama em rom-coms.

“Cupido é moleque teimoso” é o filme em questão. O enredo acompanha o divórcio de um casal após a descoberta de adultério, tanto da parte de Lucy Warriner quanto da parte de Jerry Warriner. Nada de incomum, não é? Mas o diferencial está nos personagens. Irônicos e hilários, Jerry e Lucy estão sempre provocando um ao outro. E essa dinâmica é deliciosa de se ver na tela.Ainda mais quando interpretada com perfeição por Cary Grant e Irene Dunne. O filme mostra que obras como “O amor custa caro” dos Irmãos Coen, “Leis da atração” e “Como perder um homem em 10 dias” não são novidade, e que filmes antigos podem ser completamente modernos. Tão modernos que várias vezes durante o filme eu pensei: “Por que ninguém fez um remake disso ainda?” . Deviam fazer. Com George Clooney e Renée Zellweger nos papéis principais.McCarey equilibra perfeitamente a comédia irônica, presente em cada fala e olhar, com a comédia física, centrada no personagem de Grant e, em alguns momentos, no adorável cachorro Mr. Smith.

Cara Universidade de Heriot-Watt, eu não tenho medo da síndrome do fã de comédias românticas. Sou viciada e se você quiser que eu vá para a reabilitação, eu digo não, não, não (10 pontos pelo esforço da piadinha). Mas como toda viciada, espero minhas próximas doses de risadas e choros envergonhados no final com grande expectativa. Richard Curtis, Garry Marshall, Nora Ephron, Hugh Grant, Richard Gere, Julia Roberts, Meg Ryan, onde estão vocês? E onde estão os charmosos novatos que receberão a missão de continuar a missão que foi cumprida com mérito por Cary Grant e Irene Dunne? Por vocês aguardo, com pipoca, chocolate e a eterna crença em um final feliz.

domingo, 25 de abril de 2010

"Tão louco quanto um chapeleiro"



Filme: Alice no país das maravilhas (Alice in wonderland - 2010)
Nota: 8
Para ler escutando: Crazy - Gnarls Barkley


"Sim, você é louco, completamente maluco, mas vou te contar um segredo, as melhores pessoas são " - Alice Kingsleigh

Essa é uma opinião compartilhada pelos três alicerces da recente adaptação cinematográfica de “Alice no país das maravilhas”.O escritor Lewis Carroll , o diretor Tim Burton e o ator Johnny Depp são grandes estudiosos e admiradores da loucura e da excentricidade, e esse filme é uma declaração de amor à insanidade.

Existe uma fina linha que separa o excesso de criatividade e imaginação e a loucura. Na verdade, o próprio processo criativo pode levar à perda da sanidade. Vários grandes artistas eram loucos, como Van Gogh, Lispector, Mozart. E é sobre essa linha que Tim Burton gosta de trabalhar, sempre centrando seus filmes em personagens no mínimo excêntricos. E ninguém gosta mais de interpretar esse tipo de personagem que Johnny Depp. Assim uma parceria que já dura 7 filmes se consolidou, e é quase impossível separar esses dois nomes.

Quando esta adaptação de Alice de Lewis Carroll foi anunciada, cinéfilos do mundo inteiro criaram expectativas monstruosas para o filme. Todos esperavam a obra-prima de Burton, afinal, tudo conspirava pra isso. Grande elenco, história icônica e completamente doida, e uma liberdade artística enorme (afinal, com o sucesso de sua carreira, hoje em dia Burton tem praticamente carta branca pra fazer o que quiser). Ainda por cima, seria o primeiro filme do inovador diretor a utilizar a tecnologia 3D.

Aí veio o resultado final e as críticas começaram a aparecer. Algumas delas, direcionadas ao roteiro. Burton não adaptou diretamente nenhum dos dois livros da saga de Carroll, e não agradou os fãs da obra. E também não agradou os que, erroneamente, esperavam um filme com uma história forte, que fosse mudar a sua vida. Tim Burton não é um diretor de palavras, e sim um diretor de estética, de imagem. Reclamar de uma história superficial em um filme dele é igual procurar uma mensagem maior em Kill Bill Vol. 1, de Tarantino.
“Alice no País das Maravilhas” possui tudo o que eu espero de um bom filme de Burton. O filme segue o mesmo raciocínio de um de seus melhores filmes, “Peixe Grande E Suas Histórias Maravilhosas”, numa reflexão sobre sonho, imaginação e loucura, e pega emprestada a estética colorida de “A fantástica fábrica de chocolates”, mas dessa vez com toques mais sombrios, mostrando a devastação do mundo subterrâneo durante o reinado da Rainha de Copas. O visual do filme é muito interessante, mas nos primeiros 20 minutos, o 3D me incomodou. Cenas muito rápidas, quando em 3D, não funcionam. Você não enxerga em três dimensões, você simplesmente não enxerga. Mas logo o ritmo diminuiu, e o uso da nova tecnologia foi primoroso. A primeira cena no castelo da rainha de copas é incrível.

Outra reclamação recorrente foi a da escolha da atriz que interpretaria Alice, Mia Wasikowska. A escolha poderia ter sido melhor (quem sabe, diminuir a idade da personagem um pouquinho e colocar a Dakota Fanning?), mas Mia não faz feio e traz para Alice toda a inocência e a estranheza que a personagem precisa. Na verdade, todo o elenco está ótimo, inclusive os ótimos dubladores Alan Rickman (alguém não vê o Snape toda vez que vê o Absolem?) e Stephen Fry (adorei o gato risonho). A única crítica vai para Anne Hathaway, que está inexplicavelmente mal no papel da rainha branca. Seus movimentos de mão estão tão exagerados que você não consegue prestar atenção no resto da cena.

Depp é um caso à parte. O Chapeleiro Maluco se torna humano em suas mãos. O ator injeta uma complexidade no personagem que eu realmente não esperava. Mas de um ator que nos trouxe Willy Wonka e Capt. Jack Sparrow, o erro de esperar uma interpretação simples foi meu.

Sem dúvida nenhuma, o final do filme foi o que ganhou minha admiração. Nele, Burton declara explicitamente que é a ousadia dos que se atrevem a ir além do que a sociedade espera dos mesmos, a sonhar, mesmo que isso signifique sofrer o julgamento dos que se julgam normais, é o que move o mundo para frente.Os que acreditam em seis coisas impossíveis antes do café-da-manhã são os únicos capazes de torná-las possíveis. E os que se julgam normais, são apenas coadjuvantes na história. E para Tim Burton, os que importam são os protagonistas.

sábado, 17 de abril de 2010

A arte de fazer sentir


Filme: A vida secreta das abelhas (The secret life of bees, 2009)
Nota: 8,5
Para ler escutando: Tender - Blur

Eu sempre fui de chorar em filme. Dos densos como “Menina de ouro” aos leves como “Simplesmente amor”, nunca tive vergonha de sair de uma sala de cinema com meu nariz de Rudolph, a Rena, pós-choro. Mas alguns filmes que fazem a maior parte das pessoas chorarem, simplesmente não funcionam comigo. Em Marley e Eu, não derramei uma lágrima sequer. Não gosto de um filme que parece se esforçar, em cada frame, em cada diálogo, pra fazer chorar. Outro caso que não me levou aos prantos foi Preciosa. O filme joga as tragédias no espectador de forma violenta, “na cara”, demais. Eu passo tempo demais sentindo repulsa, raiva, nojo, para sentir emoção genuína.
Mas alguns filmes me causam um fenômeno estranho, e vários desses filmes acabam parando na minha lista de favoritos. Nesses, eu não choro em uma cena específica, épica, gloriosa, que faz você derramar litros de lágrimas instantaneamente. O choro vem fracionado, tímido, porém constante. Em alguns casos, eu nem sei exatamente o que está me emocionando (“Uma vida iluminada”, por exemplo). Em outros, é mais fácil definir. Isso aconteceu com “A vida secreta das abelhas”.
Quando um cineasta resolve abordar um tema extremamente pesado, existem dois caminhos que ele pode escolher. Ambos os jeitos podem gerar bons filmes, mas nenhum diretor consegue ser bom nos dois. Alguns escolhem a franqueza, a violência, o visceral, como os fantásticos Gladiador e Hotel Ruanda. E outros escolhem a sutileza, a imagem, o silêncio, como “O Leitor”. O filme de Gina Prince-Bythewood, “A vida secreta das abelhas”, trata de um tema extremamente denso: Uma menina que aos 4 anos de idade, mata acidentalmente a própria mãe. Isso é apenas o tema central, que é cercado por diversos outros assuntos pesados, como o racismo no sul americano na década de 60, a loucura e a violência doméstica. Tinha tudo para virar um melodrama incômodo. Por que isso não acontece? Pela sutileza da direção e pelo talento incrível de seu elenco.
Lily Owens, a jovem garota que carrega uma culpa e um vazio inimagináveis, só podia ser interpretada por Dakota Fanning. Alguém ainda duvida que essa menina vai ser uma grande atriz? Eu não concordo com essa pergunta que fiz. Ela já é uma grande atriz. Dakota não busca saídas fáceis, e cria uma Lily inesperada, que apesar de tudo que viveu, ainda vê o mundo com os olhos de criança.
Queen Latifah se afasta completamente da sua personagem habitual, cheia de marra, e encarna uma mãezona acolhedora, paciente e sábia. Essa mudança mostra que a vencedora do Oscar por Chicago tem alcance sim, e talento de sobra. Sophie Okonedo também faz uma personagem memorável, importantíssima para a trama, pois mostra à Lily a importância de se permanecer sensível, mesmo quando o mais fácil seria afastar os sentimentos. Paul Bettany, apesar de não possuir muito tempo de cena, faz o dever de casa como o pai violento, emocionalmente devastado e complexo de Lily. Já Alicia Keys, não convence e até atrapalha a credibilidade de algumas cenas. Exagerada e caricata, só funciona na única cena que resolve não fechar a cara e cruzar os braços, após ser molhada por Lily.
Em um ano que o Oscar de melhor direção foi, pela primeira vez, concedido à uma mulher, esse filme é um triunfo da sensibilidade feminina atrás das câmeras. Cenas como a primeira caminhada da personagem principal através de sua nova casa, e da caixa em meio a plantação, falam mais sobre uma personagem com imagens que muito filme tenta falar com palavras.

Dessa vez, a letra do “Pra ler escutando” define muito o espírito que o filme traz, da importância de ser amado para a completude de uma pessoa. E duas personagens do filme, Lily e June, trazem uma dificuldade enorme de aceitarem o amor do próximo. Lily, apesar de ansiar que a vida a prove o contrário, não sente que merece ser amada, após as tragédias que cercaram sua infância. June parece sentir que se permitir ser amada a tornaria mais frágil, menos senhora de si, menos independente. “A vida secreta das abelhas” é um filme doce, assim como o mel, seu tema recorrente. Isso pode incomodar aqueles que possuem uma visão mais amarga da realidade. Mas são exatamente esses que devem assisti-lo, e deixar o motivo de sua amargura nas rachaduras do muro de pedra de May. É um filme sobre a arte de saber sentir o amor e entender os sentimentos do outro, em um mundo que parece preferir sentir ódio e culpa.

P.S.: Caro Peter Jackson, é assim que se faz uma adaptação de livro sobre uma pré-adolescente que apesar do sofrimento, não esquece que é uma pré-adolescente. Saoirse Ronan, é assim que se interpreta a tal pré-adolescente.

sexta-feira, 26 de março de 2010

A segunda impressão é a que conta



Para ler escutando: Vampire Weekend – Giving up the gun

Um bom álbum de estréia é uma coisa extremamente importante na trajetória de uma banda. É o primeiro álbum que cria uma base de fãs, que impressiona ou não a crítica, que define como que a banda trilhará seu caminho para o sucesso. Se o primeiro álbum é ruim, fica difícil se recuperar da queda e evoluir a ponto de se tornar uma grande banda. Se o primeiro álbum é razoável, os caminhos ficam na mesma. Já se o primeiro álbum é ótimo, aclamado pela crítica, sucesso de público, digno de uma posição nos melhores de seu ano de lançamento... Aí, as pessoas começam a falar da “Maldição do Segundo Álbum”.
Se uma banda já se torna Cult no cd de estréia, qual direção ela deve tomar no seu segundo? Alterar seu estilo pra não estagnar, ou seguir exatamente com a fórmula do primeiro, pois não se mexe em time vencedor? E nesse dilema muitas bandas se perdem.
Mas eu não acredito na “Maldição do Segundo Álbum”. Sabia por quê? Essa semana, empolgada com um ano cheio de segundos lançamentos de ótimas bandas, percebi que a maioria dos meus álbuns favoritos de cada uma das minhas bandas favoritas são exemplares dessa maldita classe. Coldplay? A Rush of Blood to The Head. Keane? Under The Iron Sea. The Killers? Sam’s town. Radiohead? The Bends.The Strokes? Room on fire.The Gaslight Anthem? The 59’ Sound. Editors? An end has a start. E por aí vai, Interpol, The Shins, We are Scientists,Lily Allen, Doves, Jack Johnson, Jason Mraz, Kings of convenience… E nos casos nos quais o cd favorito é o terceiro, ou primeiro, ou seja lá qual for, eu geralmente fico entre o próprio e o segundo (casos de Snow Patrol, Arctic Monkeys, Foo Fighters e Travis por exemplo). Por que será?
Acho que simplesmente porque é no segundo disco que a banda define sua identidade. Por exemplo, Los Hermanos deixaram pra trás um hit estrondoso (Anna Júlia) para mexer com novos sons em Todo Carnaval Tem Seu Fim, e o risco valeu a pena.
Podem ser discos que não te conquistam de primeira, mas para mim, são discos mais complexos e interessantes, e que, pelo o que eu observei em minha pesquisa, geralmente geram pelo menos um single que vira símbolo da banda.
Outro detalhe interessante que reparei é que, fora da época dos blogs, que popularizam uma banda antes mesmo de que esta lance um EP sequer, as bandas antigas apresentavam segundos LPs geralmente inexpressivos, quando comparados com os álbuns posteriores.Eles geralmente pareciam continuações do primeiro. Porque? Por que não havia pressão para que nada fosse mudado. Por que o sucesso da banda ainda era pequeno. As coisas não aconteciam tão rapidamente como hoje.
Como entusiasta desses cd’s “vítimas da maldição”, estou feliz esse ano. Vampire Weekend conseguiu superar seu ótimo esforço de estréia e abriu 2010 com o genial Contra. She and Him, a banda de Zooey Deschanel e M. Ward superou todas as minhas expectativas com o Volume II, que para mim está há anos-luz do seu antecessor. Os caras do Foals já lançaram duas faixas de seu Total Life Forever, e apresentaram um amadurecimento fantástico de Antidotes para cá. Ainda aguardo Klaxons e Sara Bareilles e seus novos esforços com muita ansiedade.
Pena que uma banda resolveu construir uma prova concreta da lenda do segundo disco ruim. O MGMT, que nos premiou com um dos melhores discos de 2008, Oracular Spectacular, decepcionou DE VERDADE com seu novíssimo Congratulations. Com o intuito de ousar, abandonaram o pop eletrônico que tanto popularizaram há dois anos e abraçaram um som esquisito, com mais guitarras. Não gosto de nenhum cd no qual você não percebe que a faixa mudou, contínuo demais, fica chato.Ainda mais quando a música que nunca termina já não seria boa com 3 minutos de duração. Junto com o 4º cd do Gorillaz, a dupla norte-americana entra para a lista de grandes decepções do ano. Espero que essa lista seja curta.
A verdade é que o segundo disco é a prova de fogo que separa as bandas que deram sorte e ganharam uma atenção que não conseguirão manter, e as ótimas bandas de verdade (fora algumas exceções, de bandas que conseguem se recuperar de um fracasso). Se você passa no teste com louvor, é porque não vai sumir tão cedo dos nossos fones de ouvido.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Finalmente, a lista. Top 10 Filmes 2009.

Arte é subjetiva. O filme que eu assisto pode ter o mesmo nome, roteiro e atores que o que você viu, mas simplesmente não é o mesmo filme. Isso também funciona para música. Afinal, o momento que vivemos, nossas experiências, nossos gostos, contribuem para a experiência como espectador ou ouvinte de determinada produção.
Sendo assim, uma lista sobre qualquer forma de arte não pode ser imparcial. Não são fatos, são opiniões. Você pode olhar para as minhas escolhas de Melhores Filmes de 2009 e simplesmente pensar : WTF?!
Mas esses foram os filmes que mais “falaram” comigo esse ano.Os filmes que não serão esquecidos. E sim, eu ousei deixar os grandes oscarizados de fora do meu top 5. Sou rebelde. Ha-há.

10ª Posição – Star Trek
Por quê?
Porque me fez querer, mais do que nunca, entrar na Enterprise , colocar um uniforme da Frota Estelar e vivenciar aquilo. Porque fez aquela série antiga parecer uma das coisas mais cool da Terra. E porque foi a maior prova, pra mim, que o J.J. Abrams é uma das caras do futuro de Hollywood.
Melhor momento: Ao som de Beastie Boys, um jovem James Kirk dirige um conversível pelo deserto fugindo da polícia. O que eu chamo de um belo início de filme.

9ª Posição – Zumbilândia
Por quê?
Porque foi um filme que me surpreendeu. Porque veio de um gênero do qual eu não espero realmente nada de interessante. Porque o Woody Harrelson está genial, e seu personagem tem algumas das melhores falas do ano. Porque me fez me divertir como se tivesse num parque temático.
Melhor momento: A aparição de Bill Murray.

8ª Posição – Um sonho possível
Por quê?
Porque é um filme de esporte, com um plano de fundo social e consegue não ser clichê a ponto de irritar. Porque Sandra Bullock finalmente conseguiu ser notada pela crítica sem mudar nada no seu estilo de atuação. E ela conseguiu ser 500x mais natural que a grande diva Meryl Streep esse ano. E ainda por cima deu um show de esportiva no Razzies. E porque Michael Oher é simplesmente uma personagem/pessoa real extremamente meiga e interessante.
Melhor momento: Acho que a cena que o Michael diz que nunca teve uma cama antes definiu o filme pra mim.

7ª Posição – Por uma vida melhor
Por quê?
Porque chegou pra mim nos 45 minutos do segundo tempo e me conquistou. Porque tem a melhor trilha sonora do ano (em um ano que existiu 500 dias com ela). Porque tem aquele humor esquisitinho que eu amo tanto. Porque me deixou mais fã ainda do trabalho do Sam Mendes (e me fez esquecer da coisa horrível que foi Soldado Anônimo).
Melhor Momento: A melhor cena final de um filme do ano. Quando eles encontram finalmente o ponto final de sua jornada é... poético.

6ª Posição – Onde vivem os monstros
Por quê?
Porque não é um filme que você simplesmente vê, você interpreta, você brinca, você se sente imerso. Porque tem a fotografia mais legal do ano (toma, Avatar!). Porque foi o melhor trailer do ano (também, Wake Up do Arcade Fire foi uma escolha brilhante). Porque Spike Jonze foi muito corajoso de adaptar um livro que praticamente não tem história.
Melhor Momento: A “bagunça geral”. Dá vontade de sair correndo com aqueles bichos de pelúcia gigantes.

5ª Posição – Apenas o fim
Por quê?
Porque esse filme fala da minha geração, do meu universo, de tudo que eu cresci vendo e escutando. Porque é Brasileiro e não fica preso nos clichês do cinema nacional. Porque nada acontece no filme, é só uma longa conversa entre dois namorados prestes a terminar, e você não se sente entediado nem em um segundo.
Melhor momento: Não é um filme de melhor momento, digamos que o filme inteiro é o melhor momento.
4ª Posição – Up - Altas Aventuras
Por quê?
Porque Carl Fredricksen é o MÁXIMO. Porque o início desse filme é a melhor coisa que a Pixar já fez. Porque me fez chorar num desenho animado. Porque.........ESQUILO! Ops. Porque foi indicado à melhor filme no Oscar. Porque o Alpha foi o vilão mais divertido do ano.
Melhor Momento: Precisa falar que é a pequena história de Carl e sua amada? Não, né.
3ª Posição – Bastardos Inglórios
Por quê?
Porque deu ao cinema um dos melhores (logo, piores) vilões de sua história. Porque foi o filme no qual Tarantino ousou mudar a história mundial. Porque sua fotografia e trilha sonora homenageiam todo o passado da sétima arte. Porque sabe conciliar momentos tensos, tristes, angustiantes e engraçados sem perder seu tom nem por um minuto.

Melhor momento: Mais uma cena inicial na lista. Você fica tão tenso durante o diálogo de Hans Landa e LaPadite que você não respira.

2ª Posição – Amor sem escalas
Por quê?
Porque esse filme é tão, tão incrível que eu não consegui escrever nada digno dele para o blog. Porque foi o melhor roteiro adaptado do ano. Porque é o melhor filme do Jason Reitman (e ele fez Juno!). Porque o elenco está completamente afiado. Porque te faz refletir MESMO. Porque é engraçado MESMO. Porque ao escrever esse pequeno parágrafo, tudo o que penso é que eu preciso urgentemente de ver esse filme de novo.

Melhor momento: O discurso “O quanto sua vida pesa?”. Porque você entende tudo aquilo o que Ryan diz, e depois o filme (e a vida) te prova o contrário.

E AGORA...a surpresa (não mesmo, pra quem me conhece):

1ª Posição: (500) DIAS COM ELA
Por quê?
Porque é bom demais, uai! Por quê é inovador, criativo, maravilhosamente escrito, doído porém otimista. Trilha perfeita, personagens perfeitos, as falas são tão verdadeiras que você decora e cita em conversas aleatórias, porque foi o único filme do ano que eu quero TER. Porque pra mim, é o filme definitivo sobre um “break-up”. Não acredito que alguém abordará esse tema com tamanha sinceridade. Porque é um filme que cresce a cada vez que você assiste (diz a pessoa que já viu 3 vezes). Porque umas 20 cenas do filme podiam estar naquele espaço “Melhor Momento”.Porque é o único filme da lista que eu mal consigo enumerar os porquês.

Melhor momento: Acho que a cena do “Expectativa/Realidade” é uma das 10 cenas favoritas de todos os tempos da blogueira que aqui escreve.

domingo, 21 de março de 2010

Um lugar para chamar de lar


Filme: “Por uma vida melhor” (Away we go, 2009)
Nota: 9
Para ler escutando: Wait – Alexi Murdoch

Famílias disfuncionais estão para o cinema Indie Americano como crianças descabeladas estão para o terror japonês. Problemas familiares, pais estranhos e filhos que se tornam mais estranhos ainda são essenciais para esse “gênero” que eu amo tanto (vários dos meus filmes favoritos são dessa leva de pequenos grandes filmes). E quando Sam Mendes, diretor de “Beleza Americana”, “Estrada para Perdição” e “Foi Apenas um Sonho” resolveu entrar no clube das pequenas comédias dramáticas com “Por uma vida melhor”, o que todos os críticos esperavam era um retrato ácido de mais uma família problemática. Então, quando o resultado da iniciativa de Mendes chegou aos cinemas, os críticos mais nervosinhos começaram o coro, dizendo que o casal criado pelos roteiristas Eggers e Vida olhava para o mundo e para as pessoas que conheciam com uma falsa sensação de superioridade.
Essa não é a impressão que eu levo da jornada de Burt Farlander e Verona de Tessant, duas pessoas perfeitamente cientes dos problemas que carregam, por um lugar pra chamar de lar e criar o filho que estão esperando. O polêmico diretor da trama não está tentando perpetuar uma idéia de que existem famílias perfeitas, afinal, seu primeiro e premiadíssimo filme “Beleza Americana” foi feito exatamente para destruir essa idéia. A questão que é levantada por esse sensível filme é a dificuldade de começar uma família. Ninguém começa uma família já com o intuito de que dê tudo errado. Burt e Verona se amam, amam o filho que esperam e se encontram num período de extrema insegurança. Todas as famílias, todos os lares que encontram, falharam na busca de uma vida familiar sólida, saudável. E eles tentam, desesperadamente, na forma de promessas e fórmulas mágicas, fazer aquilo dar certo. A questão é: Nenhuma família disfuncional já começa assim. Os erros não são planejados. Grande parte dos casais quer uma família feliz, e buscam isso da maneira que acham que vai dar certo. E muitas vezes, não dá certo. Pois não existe fórmula mágica pra nada que envolva seres humanos.
A questão que eu passo para os críticos que disseram que Burt e Verona estão errados na sua busca por normalidade, é bem simples: O que acontece se as pessoas pararem de buscar isso? É errado querer ser melhor do que os maus exemplos que observamos? É melhor parar de acreditar que qualquer coisa pode dar certo? Não.
Voltando nossas lentes para os aspectos técnicos, a direção de Mendes é belíssima. Os atores principais, John Krazinski e Maya Rudolph, ambos com um passado extremamente ligado à comédia televisiva, saem de suas zonas de conforto e apresentam personagens sensíveis, adoravelmente esquisitos e em nenhum momento, exagerados. O elenco do filme é extremamente competente, mesmo com papéis bem caricatos.
Mas nada se compara à trilha sonora. Alexi Murdoch dita o ritmo do filme com seu folk impecável. É o tipo de trilha sonora que você espera os créditos acabarem pra descobrir quem fez, e, no meu caso, corre para o YouTube instantaneamente após o fim do filme. O maior triunfo do filme. Uma das melhores trilhas que eu já vi.
Para construir seu lar, sua família, a sutil Verona de Maya Rudolph foge das convenções do casamento, e resolve viver no único lar que julga feliz, a casa de seus pais (que morreram quando Verona tinha 22 anos). Ingenuidade? Somos todos ingênuos quando se trata de relações humanas. LN e sua crença numa criação alternativa para seus filhos, sem carrinhos de bebê, o irmão de Burt e a vontade de ter sua mulher de volta, Munch e sua vontade de ter um filho biológico. Mas ainda é melhor ser ingênuo do que ser cético. Por que o cético não tem motivo pra se mexer, então, fica estagnado. Fica a dica para os críticos.

domingo, 7 de março de 2010

Previsões para o Oscar


Para ler escutando: The Waltz - The Static Jacks

Melhor filme

Vai Ganhar: "Avatar"
Eu Queria: "Amor sem escalas"

2010 ficará na história do Oscar como o ano que a quantidade provou não ser proporcional à qualidade. Dez filmes indicados ao prêmio principal, sendo que poucos tem o nível que se espera da premiação. Não são filmes ruins, mas também não tem aquele fator wow. Não são memoráveis. Para mim, “Amor sem escalas” e “Bastardos Inglórios”, até mesmo o “Up-Altas Aventuras” são superiores aos grandes concorrentes do ano, “Avatar” e “Guerra ao terror”, mas a academia não vai ignorar a superprodução de James Cameron e a renegar aos prêmios técnicos.

Melhor Diretor

Vai Ganhar: Kathryn Bigelow ("Guerra ao terror")
Eu queria: Quentin Tarantino ("Bastardos Inglórios")

A solução diplomática da Academia.Melhor filme pode ir pro James Cameron, mas a justiça será feita, pelo menos em parte. Kathryn merece o Oscar bem mais do que seu ex-marido perfeccionista. Ainda acho que Tarantino realizou o único filme perfeitamente dirigido do ano, mas Bigelow fez o melhor com um tema difícil.

Melhor Ator

Vai Ganhar: Jeff Bridges ("Coração Louco")
Eu queria: --------

Não assisti "Coração Louco", pois o filme só estreou ontem. Mas Jeff é unanimidade nos prêmios que antecederam o Academy Awards. George Clooney está genial em Amor sem Escalas, mas não tem o drama todo que a academia gosta. Gostei muito do trabalho de Jeremy Renner, mas... falta algo ali. Não impressiona. Logo, o “The Dude” leva essa.

Melhor Atriz

Vai Ganhar: Meryl Streep ("Julie & Julia")
Eu Queria: Sandra Bullock ("Um sonho possível")

Nessa categoria, tenho a ousadia de dizer que Sandra Bullock não leva o prêmio. O Oscar não vai entregar uma estatueta para alguém que levou uma Framboesa de Ouro de pior atriz no mesmo ano. Uma pena. Por que Sandra Bullock traz uma naturalidade ao seu papel, mesma naturalidade que falta na Julia Child de Meryl. Mas como a grande dama do cinema moderno perdeu várias estatuetas ultimamente, por interpretações sensacionais, quem sou eu pra discutir.

Melhor ator coadjuvante

Vai Ganhar, Eu Queria, Todo mundo concorda: Cristoph Waltz ("Bastardos Inglórios")

Waltz simplesmente não tem competição nesse Oscar, e no de muitos outros anos. Qualquer pessoa que assistir "Bastardos Inglórios" vai ficar de queixo caído com seu Hans Landa. Uma das melhores interpretações de um vilão que eu já vi na minha vida.

Melhor atriz coadjuvante

Vai ganhar: Mo’nique ("Preciosa")
Eu queria: Não sei. Haha.

Então, nenhuma dúvida no “Vai Ganhar”. Todas estradas apontam para a vitória de Mo’nique por "Preciosa". Mas alguma coisa me diz que é mais fácil dar um show num papel que joga vasos e TVs nas pessoas e chora de arrependimento depois, que no silêncio, no medo e na coragem, de Melanie Laurent de "Bastardos Inglórios" e na surpresa incrível que foi Anna Kendrick em "Amor sem escalas". Mas Mo'nique faz um trabalho IMPRESSIONANTE, e merece muito o prêmio.

Melhor roteiro original

Vai ganhar: Bastardos Inglórios
Eu queria: (500) Dias com Ela

Ainda não me conformo com a falta de uma indicação para o roteiro original mais original do ano,o de “(500) Dias com Ela”, e não assisti “Um homem sério” ,dos inovadores (e estranhos) Irmãos Coen, mas a vitória de Tarantino será muito merecida. Admito que ficarei extremamente decepcionada caso esse prêmio seja entregue à Mark Boal por “Guerra ao terror”. Ótimo filme, mas sua força não está no roteiro.

Melhor roteiro adaptado

Vai ganhar, eu queria: Amor sem escalas

Terceiro filme de Jason Reitman, os três com roteiros impecáveis. E o texto de “Amor sem escalas” consegue superar “Juno” e “Obrigado por fumar”. Surpreendente, moderno e que não procura saídas fáceis. Reitman, continue assim!

Comentários sobre os outros prêmios: Alguém duvida que “Avatar” leva a maioria das categorias técnicas? Não, né. Efeitos especiais, Direção de Arte e Fotografia vão pro filme de Cameron, sendo que Montagem, eu realmente espero que “Guerra ao terror” leve. Trilha sonora vai para a singela obra de “Up-Altas Aventuras”, Figurino vai para a França com “Coco avant Chanel”. O prêmio de melhor animação já deve estar na estante da Pixar, pois “Up” se destaca até mesmo nesse ano forte para os desenhos animados. Filme Estrangeiro? Não vi nenhum, então não tenho nenhum embasamento pra dar palpite. Dois filmes disputam, “O Segredo de seus Olhos” e “A fita branca”. Resta saber se a academia acolhe a ousadia de Haneke ou não.

Após a premiação, escrevo um texto aqui no Through the Frames, falando sobre o que eu realmente ACHEI do 82nd Academy Awards. Para algumas pessoas, o ano começa depois do carnaval. Para mim, nessa segunda começamos 2010, com a esperança que seja um ano melhor para o cinema. =D